O processo do newsmaking centrou-se no paradigma do gatekeeper (guardião), sendo este dominante nas práticas jornalísticas, como a recolha e a publicação das notícias no contexto dos mass media, tanto para os jornalistas na conceptualização do seu trabalho como também para os estudos académicos focalizados para esta questão de mediação. Os media tradicionais, como a imprensa, o rádio e a televisão, são dotados de uma estrutura limitada respectivamente pelo espaço disponível nas colunas do jornal e nos tempos de transmissão em rádio e na televisão. Assim tornou-se necessário estabelecer mecanismos (ou cancelas) que policiam estes “portões” e seleccionam os eventos de interesse público a reportar nos meios de comunicação social (Bruns, 2003). McQuail (1994; cit. por Bruns, 2003) define o gatekeeping como o processo pelo qual as selecções são efectuadas pelos media, especialmente no que respeita à decisão de inclusão de uma determinada notícia nos canais dos media, passando assim nos “portões” mediadores.

Como afirma Lewin (1947; cit. por Wolf, 1999), «um indivíduo, ou um grupo, que tem o poder de decidir se deixa passar a informação ou se a bloqueia» (p. 180). No entanto pesquisas posteriores explicam este processo menos ao nível individual mas antes centrados nas normas ocupacionais, profissionais e organizativas nos processos de selecção e na filtragem das notícias. Assim salienta-se o carácter deste processo pela hierarquização ordenada e ligada a uma rede complexa de feedback. Robinson (1981; cit. por Wolf, 1999) nota que «as decisões do gatekeeper são tomadas, menos a partir de uma avaliação individual de noticiabilidade do que em relação a um conjunto de valores que incluem critérios, quer profissionais, quer organizativos, tais como a eficiência, a produção de notícias, a rapidez (…)» (p. 181).

Donohue, Tichenor e Olien (1972 cit. por Wolf, 1999) focam especial atenção no modo de execução da filtragem dos eventos noticiosos: «na transmissão da mensagem através dos canais, pode estar envolvido muito mais do que uma simples recusa ou aceitação (…). O gatekeeping nos mass media inclui todas as formas de controlo da informação, que podem estabelecer-se nas decisões acerca da codificação das mensagens, da selecção, da formação da mensagem, da difusão, da programação, da exclusão de toda a mensagem ou das suas componentes» (pp. 181-182). O estudo de Breed (1955; cit. por Wolf, 1999), sobre o controlo social das redacções, confirma que a linha editorial e política dos meios de comunicação impressos é apreendida por “osmose” e é imposta pelos pares no interior da redacção. Assim a principal fonte de normatividade dos processos de construção da notícia não é o público mas antes o grupo de referência constituído pelos colegas e/ou pelos superiores.

No entanto, o conceito de gatekeeping, como nota McQuail (1994; cit. por Bruns, 2003), apesar da sua utilidade e potencialidade para lidar com diversas situações, baseia-se na assunção de que existe um conhecida e finita realidade de eventos no mundo real, da qual faz parte do papel dos media a selecção dos mesmos de acordo com os critérios apropriados de representatividade e/ou relevância. Para McQuail (1994; cit. por Cardoso, 2003) é difícil responder ao que é uma notícia, sendo que podemos estabelecer como seus atributos em a) o seu conteúdo abrange assuntos correntes ou recorrentes; b) os assuntos são tratados de uma forma não sistemática; c) são perecíveis; d) relatam acontecimentos imprevisíveis; e) assinalam tema e escolhem assuntos interessantes; f) são factuais e dotadas de valores.

A abundância excessiva de informação online cria um problema, o défice de atenção. Os gestores de conteúdos online apenas poderão atingir grandes audiências se os gatekeepers online – serviços da Internet que categorizam a informação e providenciam links para outros sites – canalizarem esses conteúdos aos utilizadores. O tráfego da Internet encontra-se altamente concentrado: 80% das entradas em sites constituem apenas 0,5% dos existentes na totalidade da World Wide Web. Nos media, o crescimento e a comercialização da Internet, foi acompanhada por um processo de orientação da atenção dos utilizadores. Um número significativo de motores de busca, entre outros portais, compete pelo monopólio, desempenhando um importante papel no captar das atenções para determinados canais de comunicação, em detrimento de outros (DiMaggio et al., 2001). O que nos leva a perguntar «o que é, então, o Internet gatekeeping? O Internet gatekeeping é a relação entre a presença dos portais – fruto da aliança telecomunicações e comunicação social – e o modo como a informação noticiosa é hoje disponibilizada e avaliada pelo utilizador da Internet.» (Cardoso, 2003, p. 137).

O acréscimo da World Wide Web no campo dos media demonstrou que os consumidores estão hoje menos confiantes no que passa pelos “portões” das principais organizações noticiosas, tendo a possibilidade de recorrer directamente aos produtores de informação em primeira-mão (como os Independent Media Centers). Os avanços tecnológicos estão a abrir oportunidades para que os indivíduos se expressem a uma audiência mais vasta (através de blogs e páginas pessoais na web). O consumidor pode tornar-se ele próprio produtor de notícias com a crescente facilitação económica e de usabilidade de gravadores e câmaras digitais, entre outros meios tecnológicos, que permitem a cobertura, gravação e transmissão de eventos (sendo um exemplo recente a transmissão vídeo por um transeunte das queda das Torres Gémeas no ataque terrorista de 11 de Setembro). Esta negação da mediação dos eventos pelos media significa que os “portões” se localizam agora nos produtores de informação, que em última análise poderá ser qualquer um que publique online informação potenciadora de notícia, assim como os próprios consumidores que, ao navegar pela Internet, agem como os seus próprios gatekeepers, ficando de fora neste processo as organizações noticiosas (Bruns, 2003).

Esta situação gerou algum cepticismo nos que se apercebiam da quantidade em excesso de informação sem critérios de qualidade que abundava na World Wide Web, posicionando o tradicional conceito de gatekeeping nos media tradicionais como uma alternativa fiável que sobreviveria ao “caos” informativo inerente ao universo online. Contudo esta visão poderá estar assente numa estreita definição das notícias de qualidade, ou seja, na crença de que existe um núcleo de itens noticiosos que objectivamente são e deveriam ser de interesse comum. Tanto nos media online como nos media offline existe uma abundância de categorias de notícia mais ou menos especializadas, deste os assuntos políticos, económicos, de interesse humano, desporto, lazer, arte, cultura, e ciências, que servem para criar nichos manifestamente estreitos de consumidores. Deste modo, não existe apenas uma multiplicação de “portões” através dos quais os eventos noticiosos emergem no espaço público, como também um vasto número de critérios para a avaliação da noticiabilidade de determinado evento para audiências específicas, particularmente nos media online existem vários nichos de media dedicados à construção de notícias que desempenham o policiamento dos seus próprios “portões”. No contexto dos media online o paradigma do gatekeeper poderá não ser o mais apropriado, é possível encontrar novas formas de construção de notícias que desenvolveram estruturas organizacionais inovadoras (Bruns, 2003).

Independent Media Centers

Dezembro 24, 2007

Os Independent Media Centers são hoje o mais recente capítulo na longa história da imprensa alternativa americana. Os proprietários dos media desde sempre controlam o conteúdo editorial, deixando de fora os interesses de múltiplas facções da sociedade americana, estas mobilizaram-se na produção dos seus próprios meios e canais de transmissão de informação. A relação entre o jornalismo alternativo e os novos media pode ser caracterizada como processo natural. New Media é o termo utilizado pelos teóricos do jornalismo para designar a rápida ascensão dos meios de telecomunicações, dos computadores e da World Wide Web e da sua capacidade de mudança sobre o processo de recolha, tratamento e disseminação das notícias. Os novos media estão a transformar o jornalismo de muitas maneiras, mas a dimensão mais importante dessa mudança centra-se na relação entre as organizações noticiosas, os jornalistas, as fontes, os publicitários e as audiências. Os IMC´s estão a reestruturar a tradicional hierarquia dos editores, publicitários, fontes, jornalistas e audiências. No universo dos IMC´s a relação entre fontes, jornalistas e leitores é a única que de facto é potenciada, sendo que outros interesses exteriores não são contabilizados neste processo (Hyde, 2002).

O que torna o conceito dos IMC´s diferente de qualquer media online é a sua focalização nas notícias locais e na sua publicação online. Enquanto que outro media online preenchem o espaço dos seus sites com editoriais, comentários, análise de notícias (e os IMC´s muitas vezes faz links com estes, entre outras fontes), os IMC´s asseguram um meio online para disponibilizar notícias de cobertura em primeira-mão, originais, através de fotos, áudio, vídeo e texto. No site do IMC, para além da informação geral acerca do funcionamento dos seus sites, existem dezenas de mailing lists dedicadas à totalidade de aspectos relacionados com os processos técnicos e editoriais do mesmo. Cerca de uma dúzia destas mailing lists remetem para tópicos gerais a todos os IMC´s incluindo as dedicadas a propostas de submissão de reportagens, discussão do design do site, assuntos técnicos, estatutos editoriais, etc. Outras ainda dedicam-se à partilha de fotografias, áudio e vídeos. As mailing lists técnicas cobrem temáticas relacionadas com fotografias e vídeo, entre outras, e cada IMC tem a sua própria mailing list para tratamento de assuntos relacionados com a mesma. Todas as mailing lists gerais e locais encontram-se disponibilizadas em índice através da main page do IMC. Existe também uma sala de chat activa para convivo entre utilizadores (Hyde, 2002).

O estatuto editorial emergiu gradualmente nos IMC´s, após o surgimento do primeiro IMC em Seattle as notícias eram publicadas online com pouco discernimento editorial. Seguido por uma dinâmica de colocação livre de reportagens e tópicos de discussão, todos os utilizadores podiam dar o seu contributo. Com o desenvolvimento deste movimento, os membros da IMC aperceberam-se que as contribuições dos seus leitores variavam em qualidade. Surge então uma hierarquização das notícias por ranking, onde as notícias eram lidas por um grupo de leitores que as classificavam, as que detinham maiores níveis de noticiabilidade eram remetidas para destaque, enquanto que as restantes localizavam-se numa coluna independente. No entanto este procedimento editorial foi muitas vezes contestado nas mailing lists como sendo uma distorção ao direito da liberdade de expressão. Um membro da IMC inglesa justificou que o que estava em questão não seria a liberdade de expressão per se, mas que em última análise as notícias de maior qualidade tomam precedência perante as de menor qualidade (Hyde, 2002).

Enquanto o criticismo das organizações noticiosas tem vindo a aumentar, os IMC´s têm vindo a fazer a cobertura das temáticas activamente e segundo diferentes pontos de vista, usando com sucesso a World Wide Web para transmitir as suas notícias. Fazendo uso das tecnologias da informação, o número crescente de IMC´s providenciou uma vasta gama de pontos de informação para vários nichos de audiências e para várias minorias da sociedade, reportando diferentes notícias segundo perspectivas diferentes face aos media tradicionais (Hyde, 2002).