A prática do gatekeeping evoluiu em grande parte como resposta à escassez de novos canais de comunicação. Os gatekeepers policiam os “portões” da informação no sentido de assegurar que apenas à informação de qualidade é permitida a transferência às audiências. Nos media tradicionais os gatekeepers não seleccionam apenas aquilo que é apropriado para os seus meios específicos, de acordo com a intuição que têm das suas audiências, como também a informação mais apropriada para destaque no espaço disponível.

A cobertura de notícias nos media tradicionais é sempre constrangida pelas limitações técnicas e comerciais da transmissão/impressão (como também dos critérios de tempo e actualidade), daí a necessidade dos jornalistas e dos editores de combinar as reportagens de várias fontes noticiosas numa única reportagem seguindo o modelo da “pirâmide invertida”. Para mais a escassez de canais nos media tradicionais coloca grandes responsabilidades sociais nos produtores de notícias, sendo que neste contexto os jornalistas são obrigados a conduzir o seu trabalho sob altos níveis de objectividade e imparcialidade (Bruns, 2003).

No ambiente online o espaço é em tudo menos limitado, a capacidade de espaço de armazenamento electrónico a baixo custo possibilita o constante alimentar das páginas web. Assuntos “menores” de audiências limitadas podem agora ser alvo de uma maior cobertura e desenvolvimento, ao mesmo nível das mais importantes temáticas da actualidade, deste modo as considerações espaciais dos media deixam de ser factor impulsionador de uma lógica de gatekeeping, e a capacidade da Internet em atrair nichos de comunidades significa que as organizações noticiosas que limitam os seus conteúdos às grandes reportagens poderão aperceber-se que as suas audiências se dirigem a outras fontes para uma maior cobertura de assuntos.

A lógica do cybertexto, através da navegação por hyperlinks, cria a possibilidade técnica de conduzir as audiências directamente à fonte online produtora de determinada notícia, reduzindo a necessidade aos jornalistas de condensar no seu site toda a informação contida nas suas reportagens. Para mais, a sua cobertura poderá até constituir-se numa simples leitura introdutória a partir da qual as audiências pelos links adicionais podem obter mais informações, e até contrastarem os diversos pontos de vista do mesmo objecto noticioso (Bruns, 2003).

Deste modo, as práticas do jornalismo online não têm de se centrar obrigatoriamente nos critérios de objectividade, imparcialidade e distanciamento, ou trabalhar sobre um quadro espacial rígido de colunas ou tempo de antena, mas antes dirigir os seus esforços no sentido de avaliar quais os acontecimentos e informação relevantes nas temáticas em que se especializaram.

Devido à abundância de potenciais fontes de notícia disponíveis na rede, tal avaliação torna-se uma tarefa crítica e para muitos jornalistas online o seu papel aproxima-se mais do bibliotecário especializado do que do jornalista tradicional, que monitoriza constantemente qual a informação que se torna disponível numa variedade de meios de comunicação social e que serve como guia para as fontes mais relevantes para os consumidores. Esta posição de “bibliotecário” contrasta fortemente com a ideia tradicional do jornalista/editor “desinteressado” – o gatekeeper – este apoia a missão de auxiliar os consumidores e não assume o papel de quem providencia ou controla a circulação da informação no espaço público (Bruns, 2003).

No fundo esta figura de “bibliotecário” permanece como uma espécie de gatekeeper, por virtude do controlo que exerce sobre o que incluir ou não no seu arquivo. Nas práticas profissionais dos media online assistimos a ambas as funções, a de jornalista enquanto gatekeeper e a de “bibliotecário” enquanto guia, para chegarmos a uma prática que se pode denominar de gatewatching. Este paradigma tornou-se visível para uma variedade de publicações online desde os blogs aos sites de notícias em open source, sendo este altamente compatível com estrutura informacional da World Wide Web (Bruns, 2003).

Para mais, muitos sites de organizações noticiosas providenciam links interactivos que geram uma dinâmica de “Envie uma cópia deste artigo a um amigo”. A capacidade de comunicação interpessoal horizontal, de reenvio de uma notícia com comentários pessoais, potencia a capacidade de discussão, envolvimento, e um processo de two-step flow (Bruns refere-se ao mesmo processo usando o termo peer-to-peer – p2p) que serve de antídoto à inerte comunicação de massas (DiMaggio, et al., 2001).

O gatewatcher completa a síntese dos acontecimentos, contribuindo para a notícia uma variedade de fontes noticiosas adicionais, determinando estas como fontes primárias e o seu próprio posicionamento como um ponto de ligação ao leitor. Hoje o leitor procura a informação do seu interesse pelo que os “portões” já não permitem que as notícias se movimentem para este, estas possibilitam que o leitor se dirija para as várias fontes dedicadas a determinado acontecimento. Assim, os gatewatchers vigiam os “portões” constantemente, dirigindo os leitores aos que irão com maior probabilidade abrir fontes de informações úteis. Podemos dizer que os gatewatchers publicitam as notícias, apontando para as fontes, mais do que procedendo à sua publicação, compilando uma aparente exaustiva listagem das fontes disponíveis.

Mantendo os benefícios do gatekeeping, esta nova abordagem ao newsmaking online apresenta vários pontos de discussão: a) as reportagens têm o potencial de ser mais exaustivas, pois os leitores podem consultar as fontes primárias directamente; b) a velocidade os acontecimentos publicados aumenta exponencialmente pois existe a possibilidade técnica de os dar a conhecer ao público assim que esta informação surge disponibilizada na web, sem ter de esperar que os jornalistas arquivem as suas reportagens ou que os gatekeepers terminem a sua avaliação sobre as mesmas; c) o processo de recolha de informações noticiosas torna-se mais transparente, aos leitores não se impede a possibilidade de verificação junto das fontes, por outro lado este processo encoraja-os a fazê-lo; d) a subjectividade jornalística tem um efeito sobre a produção noticiosa pois os leitores têm mais tendência de verificação junto das fontes; e e) os gatewatchers não necessitam de desenvolver particularmente skills jornalísticos mas antes desenvolver a sua capacidade de recolha de informação e de pesquisa no ambiente online (Bruns, 2003).

O modelo do gatewatching demonstra também alguns aspectos menos positivos. Este depende inteiramente das notícias existentes, pois não opera na produção das mesmas, dedicando-se inteiramente à sua avaliação e publicitação. Por outro lado os critérios noticiosos e todos os factores da subjectividade passam directamente para o leitor, apesar do gatewatcher proceder à moderação através dos seus próprios comentários pessoas agregados ao corpo da notícia. O gatewatching exige também um maior esforço por parte do leitor, este é um utilizador activo no sentido em que assume algo do papel do jornalista gatekeeper: através dos “portões” indicados pelo gatewatcher, o leitor na sua busca de informação e na avaliação que efectua a partir dos resultados encontrados torna-se portanto o seu próprio gatekeeper. O modelo depende inteiramente da capacidade de intuição dos gatewatchers em aferir novos tópicos de discussão que possam interessar os seus leitores (Bruns, 2003).

Outras formas de gatekeeping, como refere Cardoso (2003), centram-se motores de busca ou directórios de informação, este detêm um valor comercial associado pelo facto de serem um ponto de partida para um extenso número de utilizadores. Actuando como gatekeepers, como filtros, os critérios de resultados deste resultam do número ou valorização de ocorrência, ou seja, são os próprios utilizadores que definem quais os resultados de maior destaque, sendo os seus próprios gatekeepers, pois muitos deste motores de busca hierarquizam os resultados em opções feitas nas utilizações anteriores. «Na Internet, estar disponível não é igual a ser acessível ao utilizador pois, mesmo que o leitor saiba o que pretende encontrar, fica dependente das escolhas dos produtores de informação, dos criadores dos motores de pesquisa e das equipas de marketing, assim como dos próprios motores de busca que especificam critérios de apresentação de resultados.» (Cardoso, 2003, p. 133).

Outra questão associada com a World Wide Web é a qualidade da informação. Os portais limitam-se a seguir os critérios tradicionais de validação da informação na publicação das reportagens online, pois como afirma Bruns (2003) o modelo do gatewatching depende inteiramente das notícias existentes, pois estas são feitas por jornalistas ou retiradas de agências noticiosas. Quando um utilizador/produtor submete um endereço de Internet para registo num directório ou motor de pesquisa, na maioria dos casos apenas se procede a uma validação temática, e não de veracidade da informação ou suporte acerca da mesma (Cardoso, 2003).

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