Da Perspectiva à Imagem Inteligente com Lev Manovich e Peter Weibel
Dezembro 16, 2008
Lev Manovich em The Mapping of Space: Perspective, Radar, and 3-D Computer Graphics apresenta o argumento de que se actualmente encontramos ausente a perspectiva da arte moderna, a mesma prospera enquanto técnica do nominalismo visual, um método que permite elaborar uma representação tridimensional sobre uma superfície bidimensional, tornando-se a fundação para novas tecnologias sensoriais automatizadas remotamente.
No seguimento da proposta de Manovich, Ivens propõe que a perspectiva permite a criação de mapas precisos para uma representação tridimensional da realidade, gravando as formas de objectos e o layout de espaços no concreto. Assim sendo, a perspectiva constitui-se como um meio prático para assegurar uma relação métrica recíproca entre as formas dos objectos localizados no espaço e a sua representação.
Por outro lado, Latour compreende a questão da perspectiva enquanto instrumento de poder definindo-a como a capacidade de mobilização de recursos através do tempo e do espaço e a manipulação destes recursos à distância por meios tecnológicos. O autor ilustra a sua ideia com o exemplo da representação do Sol, enquanto corpo celeste, a partir de uma fotografia. Não sendo possível medir fisicamente o mesmo, será a partir de uma fotografia e de uma regra de escalas que podemos construir a sua representação, mantendo a sua escala em proporção com o seu tamanho real. Para mais Latour reforça a ideia de que podemos ainda mover os objectos movendo as suas representações. No limite os objectos reais e os objectos imaginados podem encontrar-se neste espaço da representação em perspectiva.
Ivens afirma que a racionalização da visão em perspectiva seguiu duas direcções distintas: por um lado, a perspectiva constitui-se como a fundação para o desenvolvimento de técnicas de geometria e perspectiva descritivas, que se tornaram uma norma (standard) na linguagem visual dos engenheiros e arquitectos modernos. Por outro lado, as tecnologias associadas à fotografia automatizaram a criação de imagens em perspectiva.
Manovich apresenta-nos o exemplo da tecnologia Radar (Radio Detection and Ranging), que através de ondas de som e de rádio cria ecos que serão reflectidos por objectos concretos no seu caminho. O sinal reflectido a partir dos objectos é captado pela antena do Radar, sendo que o tempo entre a transmissão e a recepção de eco indica a distância do objecto e a posição da antena indica a posição do objecto face a mesma. A representação desta informação consiste no aparecimento de pontos luminosos sobre uma superfície que é monitorizada pelo operador. O autor acredita que o Radar é o melhor exemplo da racionalização da visão no século XX. Toda a informação que esta tecnologia dispõe e exterioriza passa pela posição de objectos no espaço, coordenadas 3-D de pontos no espaço, sendo que os pontos podem corresponder a submarinos, aviões, mísseis, etc. Todos os pormenores relacionados com a cor, textura e até mesmo a forma, não são considerados relevantes nesta representação. Eis uma função do nominalismo visual, no qual a imagem em perspectiva se encontra isolada e abstracta.
Apesar de potenciar uma única função exclusiva, o Radar constitui-se como uma das ferramentas mais eficientes no plano da representação face a quaisquer técnicas ou tecnologias anteriores. O que nos é visível é uma pequena parte de um maior campo de exploração sensória do ambiente envolvente e a gravação da posição de um objecto no espaço deixa de estar limitado por condições de visibilidade. Para mais, sendo que esta gravação do objecto é operada em tempo real, caso a imagem sofra alterações em tempo-real, serão visíveis as mesmas alterações sobre o referente.
No seguimento da Segunda Guerra Mundial surgiram muitos outros exemplos tecnológicos de nominalismo visual, de acordo com o princípio de uma sensibilidade remota que permite a recolha e a visualização de informação sobre um objecto do qual não existe um contacto real com o mesmo. Estamos então perante duas operações distintas: a recolha de informação e a sua representação. Enquanto que a primeira operação não tem implicações sobre o olhar humano, a segunda implica uma preocupação em demonstrar essa informação numa forma visual que permita a leitura da mesma de um modo útil.
Lacan relembra-nos que qualquer imagem é composta e definida ponto-a-ponto por uma correspondência dos mesmos no espaço. Para obter uma imagem de algo não é necessário operar no domínio do visível, assim como não é necessário limitar as imagens numa representação bidimensional de uma realidade tridimensional. Podemos representar um objecto por um outro ou por uma representação bidimensional de uma forma por uma outra, sendo que é necessário criar uma regra que estabelece a correspondência entre os pontos do objecto observado e os pontos da imagem representada.
Para Latour, a perspectiva combina os objectos reais e imaginados num único modelo geométrico que permite a transição contínua entre a realidade e o modelo. O processo de criação de um modelo geométrico permanece ainda enquanto um processo manual, requerendo o domínio de técnicas de geometria analítica e perspectiva, sendo que este ainda não é automatizado e implica grande esforço na sua elaboração.
Automatizando a imagem digital perspectivada assistida por computador completa-se um processo que foi iniciado pela pintura renascentista, sendo que a automatização foi sempre um procedimento que coordenada vários passos na sua concretização, um algoritmo que envolve vários procedimentos na projecção de coordenadas de pontos em 3-D no espaço para uma superfície plana. O desenvolvimento de algoritmos de representação possibilitou nos últimos anos adicionar camadas de cor, textura, profundidade, perspectiva do ambiente, sombras, na representação digital pictórica.
O desenvolvimento destas tecnologias foi acompanhado por várias investigações relativas aos desafios gerais do nominalismo visual nas ciências computacionais, na psicologia experimental e nas neurociências. Surgiram novas técnicas matemáticas para a análise de imagens enquanto fonte de informação passível de ser traduzida em imagens realísticas. Estes processos dão lugar a um novo paradigma que se inicia na década de 70´ no qual o objectivo da visão humana passa pelo reconhecimento das formas, o que levou vários investigadores a desenvolver algoritmos pelos quais o cérebro calcula as formas dos objectos a partir do input da retina humana para que os mesmos possam ser utilizados a partir de computadores, desenvolvendo sistemas de visão integrados informaticamente.
Em The intelligent Image, Peter Weibel coloca em questão a problemática da imagem inteligente segundo a lógica dos sistemas de visão ou da percepção da imagem enquanto sistema. Mas como podemos definir este sistema? O autor propõe a distinção entre o sistema e o ambiente externo, o que implica a definição de uma fronteira que faça a distinção entre estes dois espaços distintos. Tomando a imagem do corpo humano como exemplo, podemos considerar que a epiderme é uma fronteira que distingue o sistema humano da realidade em que se insere, sendo que podemos chamar hoje a esta fronteira “tecnologia de interface”. Esta separa a imagem do objecto do objecto “real”. No entanto, é necessário considerar que esta fronteira permite uma captação sensorial para fora do próprio corpo do sistema, sendo que potenciada pelas tecnologias da informação e da comunicação esse horizonte expande-se com uma expressão acrescida através do elevado número de objectos e processos que conseguimos percepcionar. Assim, neste sistema podemos assumir o papel de observadores externos ao mesmo, mas que num outro ambiente face a um outro observador, podemos ser parte integrante do mesmo.
Para compreendermos a imagem como um sistema é essencial que a sua informação esteja alocada virtualmente em acervo. Sendo a imagem uma representação electrónica o domínio que temos sobre a mesma permite-nos a sua manipulação em tempo-real, sendo que o conceito de simultaneidade encontra-se actualmente embutido no próprio sistema da imagem. A virtualidade da informação tornou possível a variabilidade do seu conteúdo, sendo que podemos cada ponto da imagem de um modo individual e imediato. Sendo cada ponto uma variável da imagem, a sua manipulação implica uma alteração imediata na própria imagem, e a imagem constitui-se como um conjunto de variáveis apoiadas por interfaces tecnológicos que reagem automaticamente à nossa observação. A imagem é assim um sistema dinâmico de variáveis. Para que este processo seja possível foi necessário desenvolver um algoritmo, um método geral que permita a concretização do que Holland designa por “sistemas complexos adaptativos”, em que o software possuí características que lhe permitem uma autonomia e a capacidade de tomar decisões dentro do próprio algoritmo, e consequentemente, no próprio sistema de imagem. Assim o próprio sistema tem a capacidade de se adaptar, demonstrando um “comportamento inteligente”.
Quando um sistema demonstra um comportamento semelhante ao de um organismo vivo, podemos aferir que determinada imagem não é apenas uma imagem animada, algo a que Weibel designou de “imagem inteligente”. Uma imagem não comporta em si uma inteligência mas se a transformarmos num sistema a mesma pode demonstrar comportamentos e até uma determinada inteligência artificial.
No futuro, para compreendermos a imagem inteligente temos que aplicar o princípio da World Wide Web, na qual o observador não goza de qualquer norma hierárquica. O observador é apenas um ponto de ligação no sistema da imagem enquanto rede e constitui-se como interface periférico da mesma. Deste modo, a experiência colectiva da observação da imagem pode ocorrer por utilizadores deslocalizados em simultâneo. Para mais, mesmo partilhando a simultâneo a experiência colectiva da rede podemos consultar individualmente vários sistemas de imagem distintos a partir de bases de dados distintas. Esta experiência colecta diferencia-se fortemente da experiência do visionamento de um filme numa sala de cinema e/ou da televisão, devido à natureza sistémica das imagens em questão. Weibel afirma que no futuro teremos que encontrar uma tecnologia, a partir dos avanços das ciências neurais, que permita elaborar um “neuro-cinema” no qual a experiência colectiva da informação visual e acústica é não-simultânea, não-local e sem ligações físicas a um interface de comunicação web.
A mecânica quântica tem vindo a demonstrar que a realidade é relativa ao observador e que este apenas pelo acto de observação opera alterações sobre o objecto observado. Deste modo, no nosso acto de observação mudamos o comportamento da imagem, mas não mudamos a realidade. As tecnologias actuais não estão apenas a interferir sobre a percepção que temos da realidade, nem estão apenas a simular a realidade, implicam a construção da própria realidade.
Feyman questionou o princípio do desenho das imagens ponto-a-ponto (texture mapping) introduzindo a questão da transição de estados no tempo. Ao invés de considerarmos o movimento de uma partícula do ponto A para o ponto B, teremos que o definir não enquanto movimento mas antes como transições entre estados, na representação de partículas em movimento no espaço. Deste modo a imagem deve ser compreendida dinamicamente enquanto transições de probabilidades, pois nunca nos será possível efectuar a medição do espaço, apenas lhe podemos atribuir um valor probabilístico. Aqui a representação vai ao encontro do exemplo do Radar de Manovich, no qual cada ponto luminoso sobre o ecrã implica um cálculo probabilístico sobre qual o objecto real em representação. Para que se constitua a imagem inteligente temos que ultrapassar a noção antiquada de linearidade, tal como a conhecemos na narrativa visual do cinema, para um constructo de múltiplas possibilidades de caminhos. A circularidade causal impede o observador de tomar decisões sobre a imagem observada, no futuro poderemos ter essa possibilidade quando possuirmos a capacidade de armazenamento da informação virtualmente num servidor que opere ao nível quântico.
Weibel traz em questão a problemática da reprodução das imagens através da noção de “clonagem”. Se compararmos por analogia o algoritmo genético ao software é possível introduzir o conceito de clone no sistema da imagem. O princípio geral do clone é que este não é diferente do original mas antes o seu igual. O paradoxo dos clones idênticos implica não uma perda de identidade do objecto mas a perda de distinção face ao seu “outro”. No mundo clássico da reprodução existia o objecto original a partir do qual gerávamos uma cópia a partir do mesmo. No caso de um objecto este seria valorizado pela sua originalidade/efemeridade que lhe concedia o seu grau de importância, sendo que na Arte moderna teve como preocupação a produção de objectos únicos. No futuro iremos criar objectos que não serão originais e objectos que não serão cópias, com o chegar do fim da cultura de reprodução passaremos à criação de clones, sendo que os objectos em perspectiva serão entre si indistintos. Hoje podemos ainda distinguir entre sujeito e conteúdo mas temos que começar a aprender que existem já objectos sem originalidade e sem identidade.
Com a pós-modernidade começamos a introduzir a noção de que estamos a caminho de construirmos as nossas próprias identidades a partir de fragmentos culturais deslocalizados no tempo e no espaço. Contudo permanecemos ainda no domínio do “real”, sendo que a nossa identidade permanece inalterável nesse contexto. A partir do momento em que nos é possível criar tecnologicamente espaços e realidades virtuais criamos também a necessidade de nos recriamos virtualmente com novas identidades. O objectivo aqui será a construção de identidades virtuais a partir de imagens virtuais, e este processo será a elaboração de uma “imagem inteligente” que se encontra fora dos constrangimentos físicos do tempo e do espaço.