Independent Media Centers
Dezembro 24, 2007
Os Independent Media Centers são hoje o mais recente capítulo na longa história da imprensa alternativa americana. Os proprietários dos media desde sempre controlam o conteúdo editorial, deixando de fora os interesses de múltiplas facções da sociedade americana, estas mobilizaram-se na produção dos seus próprios meios e canais de transmissão de informação. A relação entre o jornalismo alternativo e os novos media pode ser caracterizada como processo natural. New Media é o termo utilizado pelos teóricos do jornalismo para designar a rápida ascensão dos meios de telecomunicações, dos computadores e da World Wide Web e da sua capacidade de mudança sobre o processo de recolha, tratamento e disseminação das notícias. Os novos media estão a transformar o jornalismo de muitas maneiras, mas a dimensão mais importante dessa mudança centra-se na relação entre as organizações noticiosas, os jornalistas, as fontes, os publicitários e as audiências. Os IMC´s estão a reestruturar a tradicional hierarquia dos editores, publicitários, fontes, jornalistas e audiências. No universo dos IMC´s a relação entre fontes, jornalistas e leitores é a única que de facto é potenciada, sendo que outros interesses exteriores não são contabilizados neste processo (Hyde, 2002).
O que torna o conceito dos IMC´s diferente de qualquer media online é a sua focalização nas notícias locais e na sua publicação online. Enquanto que outro media online preenchem o espaço dos seus sites com editoriais, comentários, análise de notícias (e os IMC´s muitas vezes faz links com estes, entre outras fontes), os IMC´s asseguram um meio online para disponibilizar notícias de cobertura em primeira-mão, originais, através de fotos, áudio, vídeo e texto. No site do IMC, para além da informação geral acerca do funcionamento dos seus sites, existem dezenas de mailing lists dedicadas à totalidade de aspectos relacionados com os processos técnicos e editoriais do mesmo. Cerca de uma dúzia destas mailing lists remetem para tópicos gerais a todos os IMC´s incluindo as dedicadas a propostas de submissão de reportagens, discussão do design do site, assuntos técnicos, estatutos editoriais, etc. Outras ainda dedicam-se à partilha de fotografias, áudio e vídeos. As mailing lists técnicas cobrem temáticas relacionadas com fotografias e vídeo, entre outras, e cada IMC tem a sua própria mailing list para tratamento de assuntos relacionados com a mesma. Todas as mailing lists gerais e locais encontram-se disponibilizadas em índice através da main page do IMC. Existe também uma sala de chat activa para convivo entre utilizadores (Hyde, 2002).
O estatuto editorial emergiu gradualmente nos IMC´s, após o surgimento do primeiro IMC em Seattle as notícias eram publicadas online com pouco discernimento editorial. Seguido por uma dinâmica de colocação livre de reportagens e tópicos de discussão, todos os utilizadores podiam dar o seu contributo. Com o desenvolvimento deste movimento, os membros da IMC aperceberam-se que as contribuições dos seus leitores variavam em qualidade. Surge então uma hierarquização das notícias por ranking, onde as notícias eram lidas por um grupo de leitores que as classificavam, as que detinham maiores níveis de noticiabilidade eram remetidas para destaque, enquanto que as restantes localizavam-se numa coluna independente. No entanto este procedimento editorial foi muitas vezes contestado nas mailing lists como sendo uma distorção ao direito da liberdade de expressão. Um membro da IMC inglesa justificou que o que estava em questão não seria a liberdade de expressão per se, mas que em última análise as notícias de maior qualidade tomam precedência perante as de menor qualidade (Hyde, 2002).
Enquanto o criticismo das organizações noticiosas tem vindo a aumentar, os IMC´s têm vindo a fazer a cobertura das temáticas activamente e segundo diferentes pontos de vista, usando com sucesso a World Wide Web para transmitir as suas notícias. Fazendo uso das tecnologias da informação, o número crescente de IMC´s providenciou uma vasta gama de pontos de informação para vários nichos de audiências e para várias minorias da sociedade, reportando diferentes notícias segundo perspectivas diferentes face aos media tradicionais (Hyde, 2002).
Marketing & Organizações Culturais
Dezembro 8, 2007
O crescimento do número de organizações sem fins lucrativos nas últimas décadas, assim como a maior responsabilização das mesmas na gestão dos financiamentos (públicos e privados) e o decréscimo do número de subsídios e fundos providenciados pelos apoios do Estado resultaram na emergência da implementação de príncipios e práticas de mercado enraizadas na lógica da empresa.
Consensualmente aplicável no contexto das organizações sem fins lucrativos, o conceito de marketing é orientado para o consumidor, sendo que actualmente existe a crença de que as organizações culturais terão mais probabilidade em atingir os seus objectivos caso as suas actividades se encontrem orientadas para a satisfação das necessidades dos consumidores/públicos (Gainer e Padanyi, 2001).
Torna-se necessário problematizar a questão se no contexto específico das Artes a orientação para o mercado pode concretizar maiores níveis de satisfação do consumidor e ganhos financeiros, que impacto terá na reputação das organizações culturais e se o tem, qual será esse impacto.
Deshpande e Webster (1989; cit. por Gainer e Padanyi, 2001) lançam o debate sobre a questão da orientação para o mercado e a cultura organizacional chegando a duas interpretações de orientação para o mercado: como um conjunto de valores da organização, uma forma de cultura da organização; um conjunto específico de actividades que implementa o conceito de marketing. Hurley e Hult (1998; cit. por Gainer e Padanyi, 2001) recusam esta diferenciação de orientação de mercado como um aspecto cultural ou como um conjunto de comportamentos, sugerindo antes que ambos os aspectos são componentes essenciais e que existe uma relação causal entre os mesmos pois a orientação de marketing pode emanar da cultura da organização e afectar a monitoriação do mercado e a sua acção sobre o mesmo.
Recentemente coloca-se a questão sobre o peso que a abordagem “racional” que a teoria em marketing coloca na formulação estratégica em geral e na orientação de mercado em particular porque não reconhece o impacto dos agentes internos das organizações (colaboradores), assim como nas políticas internas.
Cada vez mais as organizações dotadas de uma tradicional cultura “anti-marketing” se encontram forçadas a experimentar actividades orientadas para o mercado devido a pressões dos membros das direcções ou pelas necessidades financeiras, e os consequentes resultados positivos podem desencadear eventualmente uma cultura de mercado no seio das organizações culturais (Gainer e Padanyi, 2001).
A avaliação de desempenho das organizações culturais, e mais especificamente nas organizações sem fins lucrativos, é em si um exercício complexo pois os objectivos inerentes são de natureza múltipla e conflituosa, sendo é necessário introduzir uma variedade de constructos para além dos resultados financeiros.
Para mais sugere-se que estas componentes são variáveis autónomas, ao invés de componentes de um indicador geral de qualidade de performance, pois reflectem as diferentes prioridades dos diversos constituintes, as crenças instituídas entre os vários grupos de stakeholders preponderantes às organizações do sector não lucrativo (Gainer e Padanyi, 2001).
Herman (1990; cit. por Gainer e Padanyi, 2001) aponta três dimensões para a conceptualização da avaliação da performance das organizações sem fins lucrativos: “satisfação do consumidor”, “aquisição de recursos” e “reputação entre os pares”. Estas dimensões não reflectem apenas os objectivos internos das organizações como também a sua relação com a envolvente externa (Gainer e Padanyi, 2001).
Gainer e Padanyi (2001) através de um estudo de investigação por inquérito nas principais organizações culturais e organizações sem fins lucrativos nas grandes áreas de Montreal e Toronto no Canadá concluem que as organizações que implementaram actividades orientadas para o mercado nos seus planos de marketing tenderiam de facto a assumir uma cultura interna orientada para o marketing.
Por sua vez, nas organizações cuja cultura interna se encontra dirigida para uma lógica de marketing se reflecte num aumento dos níveis de satisfação dos consumidores, o que resulta numa maior capacidade de captação de recursos (financeiros e outros). No sector privado é expectável que uma boa reputação coexista com um elevado nível de satisfação entre os consumidores.
No sector cultural esta postura é questionada e por vezes contraditória. Isto acontece porque a dimensão “reputação entre os pares” assume diferentes significados. Enquanto que uma organização cultural pode usufruir de uma boa reputação pela presença consistente junto da sua comunidade, serviços de qualidade e uma forte componente de entretenimento, esta pode ou não ser acompanhada por um reconhecido mérito pelos sectores pares na comunidade artística. Para mais muitos agentes culturais reconheciam que ganhar “popularidade” através de processos de tomada de decisão e de gestão cultural centrados na satisfação das prioridades e desejos do consumidor cultural tenderiam ao declínio da reputação da organização na perspectiva de reconhecido mérito e qualidade artística.
Os autores concluem precisamente o oposto: a reputação artística das organizações culturais que se encontram fortemente dirigidas para as suas audiências demonstrava um manifesto crescimento como resultado desta orientação. Isto parece demonstrar que os argumentos sob a premissa de que a resposta às forças de mercado e a sua tradução numa manifesta percepção de má qualidade na produção artística é falsa e baseada numa dicotomia simplista da relação entre excelência artística e popularidade.
Esta noção será melhor entendida numa perspectiva da produção artística que considere a observação do objecto cultural em si pelo consumidor como um aspecto essencial da produção. Para mais este crescimento da reputação das organizações culturais tem um efeito directo e independente no acréscimo de recursos disponíveis pelas mesmas, sendo que este factor será mais visível quanto maior for a diversidade de fontes de financiamento (Gainer e Padanyi, 2001).
A “marketização” da cultura pelas organizações culturais terá que se dirigir para além do uso exclusivo da promoção. Hoje as organizações culturais competem, para além da concorrência localizada no próprio sector cultural, com outras formas de entretenimento e de lazer. Para desenvolver uma estratégia de marketing que ultrapasse a questão da “sobrevivência” e que permita a criação de factores de sucesso perante tal competição a própria produção artística e a configuração dos seus “produtos” tem que apelar aos benefícios que o consumidor procura, mesmo que parte deste benefício seja o entretenimento.
Para além do mais o próprio “produto” terá que ser devidamente colocado e a sua política de preço definida pelos critérios da competitividade. Uma organização cultural não pode ter reservas, nem precisa de o ter, de providenciar tais qualidades à produção artística pois permanece em aberto a possibilidade de potenciar as Artes como um desafio e um estímulo aos consumidores culturais, para que possam pensar e sentir de modos diferentes (Kolb, 2005).
Thomas Friedman: O mundo é plano?
Dezembro 7, 2007
Para uma história breve do século XXI Thomas Friedman propõe-nos uma visão positivista do processo civilizacional enquanto globalizador e impulsionador de processos disruptivos ao nível social, político e tecnológicos. No seu “mundo plano” o autor irá argumentar as razões pelas quais as empresas e os indivíduos serão capazes de colaborar com maior sucesso e competitividade, independentemente da sua dimensão.
O autor apresenta 10 acontecimentos que contribuíram para que o mundo se tornasse potencialmente plano, sendo o primeiro acontecimento identificado com a queda do Muro de Berlim em 1989. O seu propósito era a evidente separação política sentida após as potências vencedoras da II Guerra Mundial, das quais o socialismo soviético se materializou como um “muro” à visão da liberdade que outras nações aclamavam como sua e de todos os que a quisessem partilhar. A queda do grande muro gerou uma mudança no equilíbrio geopolítico potenciando a sua orientação para o mercado livre e para uma aproximação à democracia liberal. O autor defende que o comunismo soviético elaborava uma sociedade igualitária mas limitada pela pobreza tendo, no entanto, assegurado um modo de vida estável e seguro que garantia a escolaridade, o emprego e o welfare state nas questões de saúde e de manutenção de um sistema pensionário.
A uma queda insurgiram-se várias nas mais diversas regiões do mundo. A Índia, o Brasil a China e a própria ex-URSS são hoje players altamente competitivos e motivados para integrar numa nova conjectura económica sobre uma visão de comunidade e/ou ecossistema económico. Hoje é possível “imaginar” o mundo como um todo, “pensar” o mundo como um todo e ser uma personagem que o sente como um todo e que interage nas suas várias instâncias.
Com a chegada do 1º computador doméstico da IBM ao mercado em 1981 e a versão 3.0 do sistema operativo Windows em 1990, a usabilidade e a acessibilidade do hardware e software tornou-se uma realidade para os consumidores. Foi possível através deste avanço tecnológico ultrapassar uma outra barreira, a do limite de quantidade de informação que qualquer utilizador poderia acumular, produzir e difundir. A criação de conteúdos em formato digital permitiu a partilha dos mesmos por todo o mundo, pelo que o fluxo da informação tornou-se verdadeiramente plano, pois pode atravessar todos os indivíduos que anteriormente viviam numa realidade offline e que agora se conectam entre si sem quaisquer constrangimentos causados pela distância. A Globalização na sua versão 3.0 passa pela capacidade dos indivíduos se “globalizarem” autonomamente, numa lógica de “information at your fingertips” como afirmou Bill Gates, fundador da Microsoft, enquanto objectivo core da mesma. De facto, com os novos PC-Windows, com os modems e os aparelhos de fax interligados numa operadora global, tornou-se possível comunicar mais longe, para mais destinatários, de um modo mais rápido e a baixo custo.
A Word Wide Web materializou a auto-estrada do fluxo de informação através da criação de um espaço virtual partilhado por todos os seus utilizadores enquanto referencial de “arquivo” de informação. Os sites institucionais, pessoais e mais tarde os blogues admitiram não só a consulta de informação, o downloading, mas também a capacidade de uploading dos recursos produzidos pelos utilizadores. Agora qualquer indivíduo pode partilhar com o universo de utilizadores web qualquer recurso produzido por si, seja este texto, música, imagem ou vídeo, pois partilhamos através destas ferramentas tecnológicas linguagens de programação em comum, sendo este o segundo acontecimento. Foi este conceito web que tornou a Internet uma ferramenta útil, a criação de uma norma de linguagem de programação, o hypertext markup language (HTML), a concepção de um sistema de endereços para as páginas de Internet, o universal resource locator (URL) e a programação de um protocolo que permitisse a comunicação entre os vários computadores e servidores, o hypertext transfer protocol (HTTP), estabeleceram padrões de utilização, criação e disponibilização da informação on screen universais para que todos os indivíduos se pudessem verdadeiramente conectar. Hoje temos outras normas para variadíssimas funções como o JavaScript, UDT, SCORM, que potenciam o reconhecimento pelos sistemas operativos dos mais variados fluxos de informação assim como estabelecem normas para a produção e gestão de conteúdos online. Outros protocolos como o SSL, SMTP, POP e TCT/IP tornam a comunicação ainda mais desenvolvida ao nível das transferências de ficheiros, de correio electrónico e de comunicação entre mainframes e computadores pessoais.
Com o surgimento do 1º browser para a Internet, o Netscape, cria-se a referência para os motores de busca dedicados aos utilizadores que consultavam informação online ainda sem qualquer auxílio que não o do conhecimento prévio dos URL´s. Este aplicativo alterou por completo a lógica de utilização da web, pois com o crescimento dos sites e das empresas online o mercado alargou-se, assim como os seus utilizadores e as lógicas da publicidade e do marketing. Quando a Netscape passou a estar cotada na bolsa esta atingiu um elevadíssimo volume de negócios, pelo que assistimos nos anos seguintes a um boom das dot-com e a um investimento excessivo na instalação dos cabos de fibra óptica para que se assegurasse a conectividade de um modo alargado num mundo cada vez mais plano. Quanto mais acessível se encontrava a informação, mais ferramentas e aplicativos de colaboração eram exigidos pelos utilizadores às empresas, e a “bolha especulativa” da Internet atraía cada vez mais capital, o que potenciava cada vez mais a inovação e a criação de valor. Muitas empresas foram vítimas deste investimento excessivo e viram-se remetidas ao insucesso. No entanto, cada vez mais as pessoas podiam comunicar e interagir entre si pelas mais diversas partes do globo.
O terceiro movimento consistiu na passagem desta lógica de conectividade às empresas e pela programação de software de sistematização de fluxos de trabalho. As ligações dedicadas como as VPN´s (virtual private network) permitiram elevadas partilhas de informação sobre uma estrutura ethernet ou banda larga sem fios, permitindo trabalhar em tempo real sobre processos a decorrer, como por exemplo, a produção de uma animação gráfica em gravação, escrita, som e movimento a partir de localizações geográficas diferenciadas. Hoje a sistematização de fluxos de trabalho permite através do e-mail a aquisição de produtos, a transferência bancária para pagamento, a facturação automática e a comunicação por bases de dados de stock´s em alguns minutos automaticamente. Para que isto fosse possível não era suficiente que as pessoas pudessem comunicar entre si através das máquinas, mas que estas últimas também comunicassem entre si. Era necessário materializar um software interoperacional e ininterrupto de sistematização dos fluxos de trabalho que permitisse que qualquer documento fosse reconhecido e transportado por vários computadores. Nasce assim a norma XLM (extensible markup language) e o protocolo de transporte SOAP (simple object acess protocol) que permitem que dois programas informáticos possam partilhar entre si qualquer tipo de documento sobre qualquer tipo de formato, sendo este reconhecido por ambas as máquinas. No entanto, para que a sistematização de fluxos de trabalho consiga dar mais valor às empresas e aos utilizadores, é necessário cada vez mais conceber padrões comuns. Um novo tipo de codificação emergente designa-se de AJAX (JavaScript e XML), permitindo através de uma página de Internet de uma empresa fazer a gestão da mesma: contactar os clientes, fazer o acompanhamento de inventários, a gestão de pessoal, a gestão de projectos, a gestão financeira e a concepção de produtos. No entanto, a novidade é que toda esta gestão de processos e de documentos pode ser feita à distância, sendo que todo o repositório da informação encontra-se em servidores, não precisando de conter a informação num computador pessoal mas aceder através deste por um simples browser de Internet. Assim, as tarefas são divididas e enviadas para quem as desempenhe melhor.
A plataforma web aqui descrita deu origem a seis novos acontecimentos que se traduzem em formas criativas de colaboração para este mundo plano, são estas o uploading, o outsourcing, o offshoring, o encadeamento de abastecimento, o insourcing e o in-forming.
O uploading consiste na transmissão de informação, de dentro para fora, ou seja, a capacidade dos utilizadores disponibilizarem dados para a web sendo que estes estariam através de sites, blogues ou comunidades online acessíveis a todos os restantes utilizadores. Como afirma Henderson, autor de A Cauda Longa, “Em tempos o talento acabava por encontrar as ferramentas de produção, agora é ao contrário”. Para além do movimento crescente do social networking e dos mass multiplayer games que nas indústrias da publicidade e dos jogos de computador já se encontram profundamente desenvolvidos, surge agora a par do conceito de shareware e do movimento open source. O desenvolvimento de software gratuito para os mais variados propósitos despoletou, através das comunidades virtuais, um grande empenho pelos utilizadores com know how de programação o desenvolvimento de ferramentas de trabalho para o computador de crescente potencialidade.
Assumindo-se como o fruto do trabalho colaborativo entre utilizadores, o software open source é a disponibilização perante a comunidade do código-fonte do software para que qualquer um dos participantes possa introduzir melhorias ou corrigir erros, desenvolvendo ainda mais essas mesmas ferramentas. Para mais, quando uma destas ferramentas se torna acessível à comunidade cabe à mesma definir, pelo interesse demonstrado, se estarão perante uma boa solução. Caso contrário poderá cair no esquecimento.
O número de programas em open source atingiu um grau muito elevado e de difícil gestão, pelo que é a própria comunidade que dá continuidade às propostas dos seus membros. Outro aspecto de trabalho colaborativo é o das Wikis, sendo o projecto mais conhecido a Wikipédia, uma enciclopédia fruto da introdução de dados pelos próprios utilizadores e da lógica do trabalho colaborativo. A capacidade de upload foi ainda potenciada pelo desejo dos utilizadores participarem na discussão pública através dos blogs e sites pessoais, nos quais tratam dos mais variados assuntos e podem disponibilizar toda uma míriade de conteúdos como texto, música, imagem, vídeo, wikis, fóruns de discussão, links, animações, etc.
ão as comunidades que disponibilizaram os seus próprios produtos e ideais e estão a modificar fortemente os fluxos de criatividade, sendo a sua direcção crescentemente bottom-up, dos players individuais para os grandes sistemas económicos e empresas. Um dos exemplos é a crescente adopção do software em open source pelas empresas, como o sistema operativo Linux ou servidor gratuito Apache para web.
Outras formas de uploading desenvolveram-se pelos softwares de partilha de documentos, em sistemas de peer2peer no qual os utilizadores através de programas como o Emule Bowlfish e o BitTorrent podem partilhar entre si os documentos em memória nos seus computadores pessoais, como música, vídeo, jogos, textos, etc.
O offshoring consiste na transferência integral de uma infra-estrutura de produção de bens, como uma fábrica por exemplo, que poderá ser deslocalizada para um outro país no qual as empresas tenham mais benefícios ao nível dos recursos humanos, impostos, energia subsidiada e despesas de saúde reduzidas, sendo depois o output da produção inserido nas cadeias de fornecimento global. Outro processo interessante será o do encadeamento do abastecimento, ou supply-chaining, dessa mesma produção. As TIC permitiram a criação de valor para as empresas de venda de bens, através da criação de avançados sistemas de comunicação entre os próprios artigos que, ao passar na caixa, comunicam com as redes informáticas de stocks, coordenando-os próximo da ruptura acompanhando o percurso dos artigos e evitando o desperdício na cadeia de distribuição.
Outra possibilidade passa pela aquisição dos componentes constituintes dos artigos de consumo através de uma vasta rede de fornecedores e retalhistas, conseguindo assim obter os custos de produção sempre aos níveis mais inferiores, trazendo mais-valia ao preço de venda ao público.
O insourcing constituiu-se numa forma completamente inovadora de colaboração e de criação de valor horizontal, a partir do qual as empresas de distribuição global, como a UPS, se tornam parceiras de outros players permitindo-lhes, através da reformulação das suas próprias redes internas, inseri-los e globalizá-los, sendo as pequenas empresas as maiores beneficiárias deste processo.
Os portais web e os motores de busca impulsionaram o processo do in-forming, o qual consiste na procura de conhecimento, de comunidades e da autocolaboração pelo indivíduo, que se torna o seu próprio investigador. Trata-se da questão da democratização do acesso à informação que tem um impacto profundo no mundo plano, onde os consumidores estão mais eficientes e os cidadãos dotados de maior empowerment. Muitas empresas contribuíram para este acontecimento, como a Google, a Yahoo e a Amazon.com por criarem a capacidade de colaboração para os seus utilizadores e por responderem ao que lhes é pedido. A cada momento todos nós enquanto actores sociais seremos cada vez mais pesquisáveis, assim como os discursos das mais variadas instâncias públicas e privadas.
Todos estes acontecimentos foram ainda fortalecidos pelos “esteróides”, ou seja, pelos processos que estão a amplificar e a dinamizar estes recursos tecnológicos pela filosofia do “digital, móvel, virtual e pessoal”. Todos os meios como a Internet, os satélites, os cabos de fibra óptica e as ligações sem fios estão a potenciar todos os processos de sistematização de processos de trabalho e todo o conteúdo e processos analógicos pelo digital, podendo ser a informação transportada para qualquer lado. Os dispositivos tecnológicos de uso pessoal estão a avançar rapidamente na sua capacidade de armazenamento de dados, assim como no seu processamento de informação. Para mais, a plataforma web permite por VoIP (voice over IP) a capacidade de fazer chamadas telefónicas a um custo de chamada local, ou até mesmo a possibilidade de concretizar conferências por áudio e vídeo de um modo gratuito, através de programas como o Skype. Outras potencialidades como os grandes avanços ao nível gráfico do software de entretenimento e os mais variados dispositivos sem fio dotam todo este aparato de um fortalecimento e aderência acrescido pelos utilizadores.
Para o autor, o desenvolvimento do fluxo da informação que assistimos hoje apenas seria possível através de uma tripla convergência que permitiu que todos estes processos culminassem para o efeito de horizontalidade do mundo. Por um lado, observámos a convergência do software com o hardware, permitindo a capacidade de multi-tasking dos diversos equipamentos tecnológicos, por outro a criatividade empresarial e o desenvolvimento de novas áreas de negócio e de adaptação a estes equipamentos na elaboração de estratégias de colaboração horizontal potenciou a produtividade das mesma.
A última convergência será a da introdução dos novos players que têm agora oportunidade para entrar no mercado global e participar na concorrência com as grandes empresas. Muitos destes actores provêm de países e de estruturas empresariais com pouca visibilidade para além da local, mas que estão pelas TIC a conseguir transpor o local para o global. Existe cada vez mais a necessidade de reclassificar os processos económicos e o modo como os actores no mercado global se movimentam através da criatividade na criação de negócios, pois estando as tecnologias ao alcance destes, a criatividade torna-se o elemento diferenciador na criação de valor para os consumidores para os quais se pretende maximizar as mais-valias.
Mas estaremos de facto mais “planos”? Quais as limitações a este processo?
O autor reconhece as críticas ao seu argumento, como a questão do determinismo tecnológico que assume no seu discurso, afirmando que as aptidões criam intenções e que se as ferramentas estão disponíveis às pessoas estas irão fazer uso das mesmas. Sabemos que o mundo “não” é plano devido aos mais variados contextos culturais, sociais, económicos e políticos que poderão causar entrave aos acontecimentos de que temos vindo a discutir. Existem ainda os info-excluídos, as populações que não entraram no terreno do mundo plano, para os quais a linha da esperança ainda se encontra muito longe do horizonte do desenvolvimento sustentável.
Mas não é apenas o barramento ao acesso das tecnologias que compõem os seus desafios, para os que “estão em rede” existem também as disparidades, como indica Castells, ao nível etário, das disparidades sociais e de educação escolar, e das empresas que lutam para se adaptar ao novo mundo “plano”.
Outra das grandes críticas aqui desenhadas é a da criação do desemprego ao nível mundial como resultado directo do offshoring e do outsourcing (que agora pode ser composto por parceiros globais), apesar de serem dinamizadas algumas regiões menos desenvolvidas e muito mais carentes que as anteriores. A validade do argumento de Friedman, de que a globalização poderá traduzir-se numa situação de “ganha-ganha” para todos os intervenientes, apenas será possível a longo prazo, pois ainda verificamos profundas assimetrias.
Não podemos esquecer que a introdução de novos players potenciou a multiplicação de fornecedores e da oferta global mas a procura não está a conhecer um processo semelhante, ainda.
O autor conclui que a única solução será a da colaboração entre as zonas do mundo planas com as que não são planas, promovendo a colaboração horizontal e as comunidades de práticas. Este acredita que o movimento da globalização é necessário para o crescimento global e para mobilizar a desejada horizontalidade, para um mundo “mais plano” e mais próspero.